150.

Áudio: Vanessa Lima

151.

Áudio: Gregório Calleres

59.

Áudio: Vanessa Lima

151.

Pouco tempo atrás fui a um velório de um desconhecido. Vi as pessoas chorando, clamando por deus, rezando e implorando uma passagem tranquila ao rapaz. Morreu jovem. No meio daquela gente eu fiquei pensando no que se tornou a minha vida, no tempo em que passei em estado de sonho, no tempo que passou vivido em ilusão, numa mentira tosca e cruenta de mim mesmo. Vivi um futuro imaginado e ao ver o rapaz morto senti finalmente a falta da razão das pessoas, a minha própria falta de razão ao viver do passado e eles de deus. Um rio que corre solitário em meio ao que os mortais jamais saberão, jamais.

Senti naquele momento a vida passada em vão, um rio que corre mais rápido que eu, mais depressa que meu desejo de finalmente não questionar mais nada. O deus de vocês põe e tira sem uma explicação lógica, o que resta é rezar à sua vontade, não ao passado corrido em futuro presente, não ao fato da dúvida, pois a dúvida nunca foi confortável, nem para mim. Enfim, fui tudo aquilo que não pude ser e senti isso ao olhar a sala ao lado, com outro velório, só que vazio, sem uma alma para lhe dar as placas, setas, a prece, a música ou a ilusão. O palco de deus é onde corro nu, numa ilusão que penso ser real para um reino onde as coisas não são tão justas como manda qualquer passagem. Nossa hora é amanhã.

Roberto Lorembrant
O Girassol Mecânico
Compre o livro clicando aqui

Créditos de imagem: Wayne S. Grazio

96.

CAPÍTULOS DE INDIFERENÇA

O verão está chegando a seu fim. Estou reclinado na cadeira, no trabalho. Neste momento nenhuma ilusão ou sonho perpassa minha consciência. Penso que amanhã estarei no mesmo lugar realizando o mesmo trabalho inútil, sem sonhar, sem a ilusão tão necessária para a interrupção da realidade tão cruel. Sonhei tanto, acreditei tanto, segui tanto aquilo que senti. Hoje só pediria para sair de meu corpo e que pudesse me observar de longe, para ver realmente a impossibilidade que tenho para sonhar, ver a minha dor e a consciência vergonhosa de existir como mais um dentre tantos. São tantas pessoas que viram apenas mais uma galeria morta de imagens dentro de nossos pensamentos. Resolveram seguir viagem num dia que nunca lembramos. Esquecemos suas faces, choramos quando não lembramos mais a face de uma pessoa que gostamos ou amamos. O que sobra é seguir o ritmo, esse fluxo infernal e caótico do bater de ondas do oceano.

O verão chega a seu fim. Coexisto com a perda de memória, com o esquecimento de certos rostos, ponto consciente este de estar vendo a perda, de não fazer nada por uma impotência misteriosa, de se fazer deixar doer porque assim é mais fácil. Queria agora me levantar da cadeira e renunciar ao que escrevo, mas me parece impossível como uma ilusão de riqueza jogada ao chão. Eu tive tantos sonhos, tantas pessoas que sumiram. Tanta gente que não lembro sequer o nome. Para onde foram? Este é meu capítulo glorioso de indiferença. Este é meu partir da estação de trem para lugar nenhum, sem ousar olhar para trás e poder chorar. Só posso levar a imprecisão do que acho que é certo, porque nada mais me bastaria que a interrupção do que penso.

As formas de enxergarmos o universo. Passamos tanto tempo perguntando quem as moldou. A resposta está em nós mesmos, quando enxergamos deus na folha de árvore que cai ou no fundo da garrafa de cachaça. Fazemos tudo pensando no auxílio divino que não existe. Penso em coisas cheias de calor, da luz que invade o que somos ao abrirmos as janelas de nós mesmos, penso novamente em como enxergamos o universo, fecho o olhar e vejo a rua que moro tão vazia quanto o avião que se afasta no céu. Sofro do degredo de tudo, isolado. O que me resta é esperar a tão sonhada noite, o calor mais ameno, a sombra do que fui às luzes dos postes que atravesso. O som dos sapatos se arrastando machuca a visão. Talvez eu seja doente, louco. Talvez eu seja apenas mais um dentre tantos com suas galerias mortas de imagens que vê um vitral arrebentado de sua própria consciência de existir.

Roberto Lorembrant
O Girassol Mecânico
Compre o livro clicando aqui

Créditos de imagem: Cinzia A. Rizzo

331.

CAFÉ DO M.

Onde eu estaria se não estivesse aqui no Café? Difícil pensar nisso. Ficaria triste se não pensasse nisso como alguém que bate as portas com força para gerar corrente de ar. Onde eu estaria? Discutiria isso com alguém se pudesse e não chegaria a lugar nenhum. Levaria meu corpo pelas ruas até o hospital em frente com meu atestado de loucura.

Engraçado como não gosto de hospitais – pensei – de nenhuma espécie. Vi uma recepcionista com maquiagem barata pedindo um café igual ao meu. As recepcionistas estarão perdidas no mesmo universo que me encontro? Talvez essa corrupção de sentimentos no fundo do copo seja minha real ignorância. Vejo a falta de virtude que me cerca, minha provável herança e condição ao fracasso. Poderia ser diferente?

Não me sinto tão culpado agora. Se todos são cegos, por que eu deveria ter coerência? Mesmo os homens mais cegos tentam informar, sem errar, os caminhos aos que ainda estão entrando na estrada, no Café. Não importa. Sou arrogante? Escrever não tem me servido mais, pois a minha entrega tem se tornado desprezo com os outros. Sinto inveja de quem se tornou algo que não pude ser. Sinto-me um boneco carregado com desleixo por qualquer criança. Poderia escrever mais sobre o aperto que sinto no peito, poderia advertir sobre qualquer tipo de amor, mas do que adiantaria? Poderia divagar sobre os infelizes chistes de alegria ao derramar o açúcar no café. Poderia fazer isso, mas seria para destruí-lo, como sempre fiz.

Roberto Lorembrant
Elegia para agosto
Compre o livro clicando aqui

Créditos de imagem: Hannah Wei

139.

ELISÍACA

Foi recente, de dias de ressaca. Havia a ansiedade no ar. Quase consigo ouvir os passos finais rumo ao destino. Foi quando a encontrei, foi como se a sua essência dançasse para mim igual aos pequenos que correm no jardim, chamando para brincar. Foi como se tudo valesse por um momento. Foi nesse relance de pensamento que relembrei que por certos momentos existe vida por trás de todas as coisas, essa coisa poderosa – força oculta e às vezes benévola – que lá no fundo nos diz para não termos medo, nunca termos medo. Naturalmente escrever não irá reproduzir um décimo do que senti ao encontrá-la, mas ajuda a lembrar de cada ato, cada momento, de cada palavra dita em tom de confidência, de cada passo de mãos dadas ou de comer o algodão doce olhando o infinito. Eu sinto que preciso lembrar esse momento todos os dias, pois há tanta beleza em algumas pessoas, em uma única pessoa. Sinto por vezes que não posso suportar esses momentos de felicidade congelada, que meu coração explodirá em flores, em cheiros. Não me recordo de guardar algo tão bom em minha lembrança. Igual as lembranças que tenho do vento e do sol, com a janela escancarada. Seguirei a te olhar todos os dias, tentarei fazer isso igual a grandiosa paz da imaginação, sem gente, apenas o pássaro que pousa brando na janela. Apenas seremos.

Roberto Lorembrant
O Girassol Mecânico
Compre o livro clicando aqui

Créditos de imagem: Cameron Evans