76.

A ideia de desistir me seduz, como se fosse a própria ideia da morte, de descobrir que nunca tivera um pai de verdade ou dentro de toda a visibilidade que o universo nos proporciona, finalmente perceber a imaginação acordada na qual vivi por tantos anos. Arquitetei desejos antes mesmo de qualquer gesto, do cansaço prazeroso de uma concepção. Nunca tive isso de verdade dentro de mim. Era tudo falso, igual a minha vida.

Dos tantos livros que li, das viagens que fiz em cada página, da minha suposta erudição, o meu convívio com os grandes, a minha percepção do sentimento alheio. Tudo isso agora é lixo, é contraditório. Tudo que escrevi pode ser jogado no lixo porque a ideia me desvanece como a água rasa num pires ao Sol.

Não tenho pai, não tenho música, não tenho o decurso das coisas. Na verdade eu nunca tive e descobri isso só agora. Ergo os olhos em protesto àquele que não existe e que nunca consola. Clamo por aquele coitado que se tivesse mandado outra vez seu representante maior, saberia novamente cantar.

Roberto Lorembrant
O Girassol Mecânico
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Créditos de imagem: Edi Libedinsky

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152.

Depois daquelas horas juntos, pensava dias depois, caminhando sozinho pelas ruas. Pensei durante muito tempo que deveria ter dito alguma coisa que não disse. Ao escrever, agora, pensei na urgência disso, de chegar ao seu pé e dizer qualquer coisa. Dizer-lhe qualquer coisa como se fosse a última, numa redenção magnífica e primordial.

No caminho para o trabalho, durante muitas vezes, desliguei o ouvido de fora pra ouvir você todas as manhãs. Pensei naquela intimidade que o som nos traz do interior de nossas ruelas. Nessa intempestividade de haver a matéria que me faz, nessa vida que deu o dom (pelo menos alguma coisa!) da reflexão, estação após estação de metrô. Ao chegar, acabo dirigindo-me ao boteco vagabundo pra tomar um café. Percebo que tudo é radicalmente solitário. Tudo está caído sobre outro mundo que é impossível. Fecho a mão dentro dos bolsos num ritual patético e percebo como é belo este movimento que nos leva ao chão. Imagino que agora você esteja repousando num sono quase inconsciente, e aqui vou pela rua em direção ao trabalho. São nove horas e penso nos seus gestos absolutos. Sinto isso de uma forma quase desesperada, com a mão dentro dos bolsos, numa gritaria em silêncio.

Roberto Lorembrant
Elegia para agosto
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Créditos de imagem: Neil Moralee

153.

O GIRASSOL MECÂNICO

O Grande Girassol Mecânico girava. Rodopiou na memória todos os momentos bons, o cheiro do pão empolando no papel, o cheiro reconfortante da chuva, o grande amor da mulher a quem se entregou. O amarelo do girassol, não por sua beleza, mas por sua condição que me arrasa e sufoca o coração. Doeu perder, doeu perder você. Eu que de minha forma tão velada, arranquei a saudade na porrada, na presença confusa e não imaginada de sua face. Tudo só poderia surgir disfarçadamente dentro de mim, em relatos pouco importantes sobre mais um dia de tristeza, com a máscara posta ao sair na rua, para as pessoas, nos lugares onde acham que você é feliz. E foi-se novamente mais um tempo, mais uma memória de meus anos, o peso fodido do silêncio, da saudade arrancada com força, erroneamente, para podermos então seguir em frente. Tudo não passa de enganação, um disfarce idiota. Sofro de algo imutável e cada vez mais fodido, aquele minuto que demora mil anos, de uma música até a outra, em ondas de tonalidades e passagens tristes de qualquer violino que poderia ser o meu. O Grande Girassol Mecânico girava e soprava a ventania em meu coração.

Roberto Lorembrant
O Girassol Mecânico
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Créditos de imagem: Geerd-Olaf Freyer

300.

CAFÉ DO M.

Sentei-me à mesa de sempre e vi o céu limpo. Tive a consciência absurda do firmamento, pois lembrei que havia tempo que não o olhava. As nuvens (poucas, na verdade!) foram a minha principal realidade enquanto as contemplava. Velava o céu como se fosse meu único e fiel destino. Entre um vento e outro, do branco ao cinza ou qualquer coisa que poderia considerar uma mudança de pensamento, já não sabia mais a diferença entre realidade e sonho. Porra, quanto desconforto em não saber essas coisas. Onde as nuvens estão faz frio. Nada fiz de útil durante a minha vida. Passo meu pouco tempo tentando interpretar atos desta natureza, tentando buscar ordem a coisa nenhuma, escrevendo textos de sensações intransmissíveis em torno das nuvens que vejo no céu. É podre quando me sinto assim, farto de tantos pensamentos e de tantas justificativas ensaiadas. Sou um farrapo que vem do alto, sou o arauto do tédio e da tristeza a porem cinza no céu,sou aquela névoa da manhã que junta a gotícula que tanto incomoda na ponta do sapato ou das meias. É, eu sou como as nuvens, longe da terra, silenciando o céu numa consciência absurda de ser algo contínuo num céu abobalhado.

Roberto Lorembrant
Elegia para agosto
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Créditos de imagem: Amélien Bayle

22.

O futuro se tornou uma espécie de calvário pra mim, o presente torna-se deserto a cada dia. As coisas andam tão rápidas, as pessoas andam tão apressadas e sem tempo, giram e se repetem ao ponto de exaustão. Quando explodirão? Os que mudam acabam se isolando, deixando o lugar mais vazio do que estava, ocupamo-nos com filosofias liquidáveis na próxima esquina do pensamento, no vazio deixado pelo cristianismo e por todas as religiões. Vivemos um hedonismo rápido e miserável, uma grosseria que está longe de ser arte ou paixão.

Algumas pessoas que entram em nossas vidas estão destinadas a sair em seguida, é uma breve memória da rapidez de nossas vidas, ainda que pisemos no freio do tempo com o objetivo de fazer o contato durar mais. Não há força em mim para essas coisas. É um vento com fúria que apenas passa, não tem o objetivo de acabar conosco – embora acabe – e desarruma todo nosso quarto, faz pensar o porquê de ter tirado mais uma cópia da chave de casa. É algo irrecuperável desde o começo e que não sentimos. Podemos nos repetir sempre, mas sem a estrutura não vivemos.

Roberto Lorembrant
O Girassol Mecânico
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Créditos de imagem: Karsten Würth

151.

Pouco tempo atrás fui a um velório de um desconhecido. Vi as pessoas chorando, clamando por deus, rezando e implorando uma passagem tranquila ao rapaz. Morreu jovem. No meio daquela gente eu fiquei pensando no que se tornou a minha vida, no tempo em que passei em estado de sonho, no tempo que passou vivido em ilusão, numa mentira tosca e cruenta de mim mesmo. Vivi um futuro imaginado e ao ver o rapaz morto senti finalmente a falta da razão das pessoas, a minha própria falta de razão ao viver do passado e eles de deus. Um rio que corre solitário em meio ao que os mortais jamais saberão, jamais.

Senti naquele momento a vida passada em vão, um rio que corre mais rápido que eu, mais depressa que meu desejo de finalmente não questionar mais nada. O deus de vocês põe e tira sem uma explicação lógica, o que resta é rezar à sua vontade, não ao passado corrido em futuro presente, não ao fato da dúvida, pois a dúvida nunca foi confortável, nem para mim. Enfim, fui tudo aquilo que não pude ser e senti isso ao olhar a sala ao lado, com outro velório, só que vazio, sem uma alma para lhe dar as placas, setas, a prece, a música ou a ilusão. O palco de deus é onde corro nu, numa ilusão que penso ser real para um reino onde as coisas não são tão justas como manda qualquer passagem. Nossa hora é amanhã.

Roberto Lorembrant
O Girassol Mecânico
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Créditos de imagem: Wayne S. Grazio

96.

CAPÍTULOS DE INDIFERENÇA

O verão está chegando a seu fim. Estou reclinado na cadeira, no trabalho. Neste momento nenhuma ilusão ou sonho perpassa minha consciência. Penso que amanhã estarei no mesmo lugar realizando o mesmo trabalho inútil, sem sonhar, sem a ilusão tão necessária para a interrupção da realidade tão cruel. Sonhei tanto, acreditei tanto, segui tanto aquilo que senti. Hoje só pediria para sair de meu corpo e que pudesse me observar de longe, para ver realmente a impossibilidade que tenho para sonhar, ver a minha dor e a consciência vergonhosa de existir como mais um dentre tantos. São tantas pessoas que viram apenas mais uma galeria morta de imagens dentro de nossos pensamentos. Resolveram seguir viagem num dia que nunca lembramos. Esquecemos suas faces, choramos quando não lembramos mais a face de uma pessoa que gostamos ou amamos. O que sobra é seguir o ritmo, esse fluxo infernal e caótico do bater de ondas do oceano.

O verão chega a seu fim. Coexisto com a perda de memória, com o esquecimento de certos rostos, ponto consciente este de estar vendo a perda, de não fazer nada por uma impotência misteriosa, de se fazer deixar doer porque assim é mais fácil. Queria agora me levantar da cadeira e renunciar ao que escrevo, mas me parece impossível como uma ilusão de riqueza jogada ao chão. Eu tive tantos sonhos, tantas pessoas que sumiram. Tanta gente que não lembro sequer o nome. Para onde foram? Este é meu capítulo glorioso de indiferença. Este é meu partir da estação de trem para lugar nenhum, sem ousar olhar para trás e poder chorar. Só posso levar a imprecisão do que acho que é certo, porque nada mais me bastaria que a interrupção do que penso.

As formas de enxergarmos o universo. Passamos tanto tempo perguntando quem as moldou. A resposta está em nós mesmos, quando enxergamos deus na folha de árvore que cai ou no fundo da garrafa de cachaça. Fazemos tudo pensando no auxílio divino que não existe. Penso em coisas cheias de calor, da luz que invade o que somos ao abrirmos as janelas de nós mesmos, penso novamente em como enxergamos o universo, fecho o olhar e vejo a rua que moro tão vazia quanto o avião que se afasta no céu. Sofro do degredo de tudo, isolado. O que me resta é esperar a tão sonhada noite, o calor mais ameno, a sombra do que fui às luzes dos postes que atravesso. O som dos sapatos se arrastando machuca a visão. Talvez eu seja doente, louco. Talvez eu seja apenas mais um dentre tantos com suas galerias mortas de imagens que vê um vitral arrebentado de sua própria consciência de existir.

Roberto Lorembrant
O Girassol Mecânico
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Créditos de imagem: Cinzia A. Rizzo